Dona Aparecida tem uma barraca de salgados na feira livre de Caruaru, no agreste pernambucano. Faz isso há dezoito anos. Quando tentou acessar uma linha de microcrédito para comprar um segundo freezer, o gerente do banco pediu comprovante de renda dos últimos seis meses, extrato bancário e declaração de imposto de renda. Ela não tinha nenhum dos três. A barraca funciona no dinheiro.

A história de dona Aparecida não é exceção. É o padrão. Segundo dados do Sebrae, mais de 70% dos microempreendedores individuais que tentaram acessar crédito formal nos últimos dois anos relataram pelo menos um obstáculo burocrático que inviabilizou a operação. O número é alto, mas não surpreende quem acompanha o setor.

O problema não é falta de programa

O Brasil tem, no papel, uma das estruturas mais completas de microcrédito da América Latina. O Pronampe, o Crédito do Trabalhador, o Fundo Garantidor de Operações — a lista é longa. O problema não está na criação de programas. Está na execução.

Cada banco que opera essas linhas tem autonomia para definir os critérios de análise de risco. E os critérios, invariavelmente, foram desenhados para clientes formalizados, com histórico bancário e documentação completa. Quem vive na informalidade — que no Brasil representa mais de 40% da força de trabalho — simplesmente não cabe nessa régua.

A professora Luciana Matos, pesquisadora de finanças inclusivas na Universidade Federal de Pernambuco, resume bem: "O sistema de crédito brasileiro foi construído para proteger o banco, não para incluir o empreendedor. Quando você adiciona uma camada de programa governamental por cima disso, o resultado é um produto que parece inclusivo mas funciona de forma excludente."

Fintechs tentam preencher a lacuna

Nos últimos três anos, algumas fintechs especializadas em crédito para MEIs começaram a usar dados alternativos — histórico de vendas no Mercado Livre, movimentação no WhatsApp Business, reputação em plataformas de delivery — para avaliar risco. Os resultados iniciais são promissores, mas a escala ainda é pequena.

O problema é que essas empresas operam com taxas de juros mais altas para compensar o risco percebido. Dona Aparecida, que precisava de R$ 3.500 para o freezer, recebeu uma proposta com taxa de 4,8% ao mês. Ela recusou. "Prefiro juntar devagar", disse.

A questão central permanece sem resposta satisfatória: como criar um sistema de crédito que seja ao mesmo tempo acessível para quem vive na informalidade e sustentável para quem empresta? Enquanto essa equação não for resolvida de forma sistêmica, dona Aparecida vai continuar juntando devagar.